O que os animais querem?

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Cachorro indeciso

Seu cachorro saberia escolher entre uma opção A ou B? Mas será que isso seria suficiente para entender o que ele realmente deseja? Nos dias de hoje, os estudos realizados para estimar o bem-estar animal costumam levar em conta apenas um ambiente que eles gostem e os elementos que preferem, mas um trabalho desenvolvido pela Dra. Caroline Marques Maia, bióloga do Laboratório de Fisiologia e Comportamento Animal Da Unesp procurou entender mais a fundo os desejos dos animais. “Não é porque o animal fez aquela opção num dado momento que é aquilo que ele quer para sempre. Pode ser uma escolha apenas momentânea, manifestada somente naquela hora”, explica Caroline.

A pesquisa de Caroline, que foi realizada com peixes, trabalha a questão da diferenciação entre uma escolha de momento e de uma mais consistente ao longo do tempo. Uma escolha de momento pode ser influenciada por um contexto, por algo no ambiente que chamou a atenção do animal ou por uma condição fisiológica naquela hora. “Na maioria das vezes, as pessoas fazem os testes de momento e consideram que a resposta do animal representa a sua preferência. E colocam tais condições para ele, buscando assim melhorar seu bem-estar a longo prazo. Mas aquilo não representa necessariamente o que ele realmente gostaria de forma permanente”, explica.

A fórmula desenvolvida pela Unesp com base no estudo pode ser aplicada para qualquer animal e permitir que tanto pesquisadores quanto tratadores e tutores de animais domésticos possam melhorar as condições e cuidados dedicados a eles. Confira a entrevista!

LSC – Primeiramente, você poderia contar um pouquinho sobre o objetivo do trabalho que realizou e a diferença que este estudo teve com relação aos testes tradicionais que procuram avaliar a preferência dos animais?

Dra. Caroline Maia
Dra. Caroline Maia

Caroline – Este trabalho é fruto do meu projeto de mestrado, cuja ideia central era diferenciar respostas de escolha das de preferência. Os testes tradicionais da literatura geralmente tem determinado as respostas de escolha do animal com base em poucos testes e, a partir disso, inferem o que o animal quer a longo prazo como sua preferência. A partir de observações de outros estudos realizados em nosso próprio laboratório, começamos a questionar se realmente escolhas apenas momentâneas representavam escolhas mais consistentes – as preferências – dos animais, pois algumas escolhas de momento pareciam persistir ao longo do tempo, enquanto outras pareciam não se manter ao longo dos testes. Assim, nasceu a ideia de avaliar se escolhas apenas momentâneas e aquelas mais consistentes ao longo do tempo são respostas diferentes dos animais quando eles estão escolhendo diferentes opções do ambiente. A partir das respostas de escolha dos animais em nossos testes, que foram repetidos por vários dias consecutivos, desenvolvemos um método que permite separar claramente as respostas de escolha mais consistentes, que devem representar o que os animais realmente querem a longo prazo, daquelas apenas momentâneas. O nosso método também permite determinar o quanto os animais preferem cada item, o que também é um avanço, pois na literatura geralmente a intensidade das respostas de escolha dos animais, ou seja, o quanto o animal gosta de cada opção, normalmente não é avaliado. Ainda um outro diferencial do nosso novo método em relação ao que vem sendo feito na literatura, é que ele permite avaliar as respostas de preferência de cada indivíduo e não apenas as respostas do grupo/espécie como na literatura.

LSC –  Poderia dar algum exemplo de como foi feito para conseguir tirar determinadas conclusões?

Caroline – Nós desenvolvemos o novo método com base em testes de escolha por cor do ambiente na espécie de peixe tilápia-do-Nilo. Ou seja, nós fornecíamos 4 ambientes semelhantes, mas de cores distintas, para os peixes escolherem por 10 dias consecutivos. A partir disso, nós observávamos a cada 30 segundos durante 1 h por dia quantas vezes os peixes entravam em cada ambiente colorido. A partir desses dados, realizamos uma série de cálculos, nos quais incluímos diferentes pesos para escolhas realizadas em diferentes dias, de forma que as escolhas mais recentes tinham um peso maior nos cálculos que as mais antigas. Assim, nos cálculos, as respostas de escolha mais atuais foram mais enfatizadas, mas sem abandonar o histórico das respostas de escolha mais antigas que também devem ser consideradas, pois fazem parte das respostas de escolha do animal. Isso também representou um diferencial em relação aos estudos nessa área, pois em geral todas as respostas de escolha tem o mesmo peso nos cálculos, o que pode levar a falsas interpretações sobre os gostos dos animais, pois no começo dos testes, o animal está enfrentando uma situação totalmente nova pra ele, e uma maior variação de resposta deve ocorrer. Essa variação não deve ter o mesmo peso que as respostas de escolha posteriores, quando o animal já está mais acostumado ao ambiente de teste e deve responder de forma mais consistente. Ao final dos cálculos, obtivemos valores positivos e negativos que claramente indicavam duas respostas distintas dos animais. Assim, propomos que os valores positivos indicam opções que os animais realmente querem ao longo do tempo, enquanto os valores negativos representam aquelas respostas evitadas pelos animais, sendo que cada cada valor por si mesmo deve indicar a intensidade de cada resposta.

LSC – Poderia nos contar alguns dos resultados obtidos?

Caroline – Um resultado muito interessante que obtivemos foi a alta variabilidade individual de resposta, ou seja, enquanto alguns peixes preferiram a cor verde, outros preferiram consistentemente a cor azul, enquanto outros preferiram vermelho e ainda outros preferiram amarelo! O quanto cada indivíduo preferiu cada item também variou muito. Isso sugere que quando visamos melhorar as condições de bem-estar do animal, devemos considerar suas preferências individualmente, pois pode não haver um padrão de resposta da espécie. Ou seja, é importante determinar respostas de preferência de cada indivíduo. Outro fato interessante, é que houve indivíduos com apenas uma única resposta de preferência, ou seja, que preferiu apenas uma das cores ambientais, enquanto outros preferiram duas cores e outros ainda preferiram três das quatro cores que disponibilizamos nos testes. Isso indica que há diferenças em termos de indivíduos mais decididos – aqueles que preferiram apenas uma das cores – e aqueles mais indecisos, que preferiram duas ou mais opções de cor ambiental.

LSC – Como o resultado deste trabalho, esta fórmula desenvolvida, pode ser usada na prática para melhorar a qualidade de vida de animais ou as ações dos tutores por exemplo? 

Caroline – A fórmula que desenvolvemos pode ser aplicada para qualquer animal e em qualquer lugar em que possam ser oferecidas algumas opções de escolha para tal animal. Ela permite que tanto pesquisadores nos laboratórios quanto tratadores em zoológico ou tutores de animais domésticos ou ainda os cuidadores de animais de produção apliquem o método para melhorar as condições de manutenção dos animais de laboratório, de zoológicos, de produção ou mesmo nossos pets. Na prática, o novo método permite estabelecer uma rotina simples de testes, nos quais a uma baixa frequência (por exemplo, uma vez por semana, ou mesmo apenas uma vez por mês) algumas opções de escolha podem ser oferecidas aos animais e com algumas observações de frequência de visitação ou interação com cada opção oferecida, já é possível calcular as preferências individuais dos animais. Uma boa vantagem aqui também é que o sistema pode ser alimentado ao longo do tempo e assim, o histórico das respostas vai sendo criado e pode então nortear as pessoas sobre o que é mais importante para os animais a partir das opções que as pessoas estão oferecendo a eles. Meu orientador, Dr. Gilson Volpato, e eu acreditamos que no futuro é possível desenvolver um aplicativo de celular, por exemplo, que vai calcular automaticamente as respostas de preferência, o que deve facilitar muito a aplicação prática da nossa fórmula.

LSC – Você pretende continuar pesquisando sobre o tema? Já sabe quais serão os próximos passos?

Caroline – Sim. Na verdade, acabei de defender meu doutorado na mesma linha de pesquisa, onde avaliei o quanto os peixes estavam motivados, ou seja, o quanto eles se esforçavam para acessar itens ambientais anteriormente identificados como itens preferidos em relação às opções de escolha que eles tinham. A ideia aqui foi determinar o quanto as preferências, identificadas pelo nosso novo método, são importantes para os animais, ou seja, o quanto eles estão dispostos a se esforçar fisicamente e psicologicamente para obter suas preferências. Meu doutorado originou mais três diferentes artigos sobre o esforço dos animais para atingir itens preferidos, que já estão submetidos a revistas científicas internacionais. Agora tenho meu projeto de pós-doutorado, onde buscarei avaliar algumas das causas da alta variabilidade individual de resposta de preferência. Nesse sentido, vou testar se a experiência prévia, o tempo de teste, a disponibilidade da opções de escolha ou a personalidade dos indivíduos afeta as respostas individuais de preferência identificadas pelo nosso novo método.

LSC – Pode nos contar um pouco sobre sua formação e relação com os animais? Sempre quis estudar e trabalhar nesta área?

Caroline – Sempre gostei e me interessei muito pelos animais, desde pequena. Quando eu estava no colegial, decidi fazer faculdade de biologia já pensando em estudá-los, de alguma forma. Quando estava na graduação e tive aulas na disciplina de comportamento animal, simplesmente me apaixonei pelo tema e comecei a ir atrás disso. Aí conheci meu orientador, o Dr. Gilson Volpato, que me orientou desde a iniciação científica nessa área. Desde então, nunca mais quis fazer outra coisa e também comecei a me interessar mais por bem-estar animal e me inserir mais nessa área, junto com o Dr. Gilson Volpato. Agora tenho inclusive um blog, onde busco expor conceitos, fatos históricos, discussões, pontos de vista e indicar livros e artigos na área de comportamento e bem-estar animal. O link para o blog é este: https://conscienciaanimalblog.wordpress.com/

 

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